
Realizada nesta quinta-feira, 11, encontro reuniu representantes da categoria, estudantes, entidades e parlamentares para refletir sobre a trajetória histórica da profissão e os desafios do presente. FOTO: @bruna_menezes86
Os 90 anos do Serviço Social no Brasil foram celebrados nesta quarta-feira (11), em sessão solene realizada no Plenário Ulysses Guimarães, da Câmara dos Deputados. Mais do que uma homenagem à trajetória da profissão, o encontro se transformou em um espaço de reflexão sobre o papel desempenhado por assistentes sociais na defesa dos direitos sociais, da democracia e das políticas públicas ao longo da história brasileira.
A atividade reuniu representantes do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), dos Conselhos Regionais, da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), estudantes, profissionais da categoria e parlamentares, entre eles a deputada federal e assistente social Luiza Erundina (PSOL-SP), autora do requerimento que deu origem à sessão.
Em comum, as falas destacaram que a história da profissão não pode ser dissociada das transformações sociais e políticas vividas pelo país nas últimas nove décadas. Se, em sua origem, o Serviço Social esteve vinculado a práticas assistencialistas e filantrópicas, hoje é reconhecido como uma profissão comprometida com a garantia de direitos e com o enfrentamento das desigualdades sociais.
O legado do Congresso da Virada
Ao abrir sua participação, Luiza Erundina resgatou momentos decisivos da construção histórica da categoria, especialmente o chamado Congresso da Virada, realizado em 1979, considerado um marco na renovação crítica do Serviço Social brasileiro.
Segundo a parlamentar, aquele processo representou uma ruptura com perspectivas conservadoras que historicamente marcaram a profissão e consolidou o compromisso ético e político da categoria com a classe trabalhadora e com a democratização da sociedade brasileira.
“O Congresso da Virada foi um momento histórico em que a categoria assumiu uma posição ativa diante da realidade brasileira, rompendo com a adaptação passiva e reafirmando seu compromisso com as lutas sociais e com a democracia”, destacou.
Erundina também relembrou a atuação de assistentes sociais durante o período da ditadura militar e a reorganização das entidades profissionais em defesa dos direitos trabalhistas e das políticas sociais.
Ao projetar os desafios do futuro, a deputada defendeu a necessidade de atualização permanente dos referenciais teóricos e dos instrumentos profissionais para responder às novas expressões da questão social.
Código de Ética como instrumento político
Representando o Conselho Regional de Serviço Social da 8ª Região (CRESS-DF), a presidenta Fernanda Barbosa Granja destacou as transformações vividas pela profissão ao longo das últimas décadas e a importância do Código de Ética como instrumento orientador da atuação profissional.
“A nossa profissão nasceu sob a marca da benemerência e do controle social, mas teve a coragem histórica de romper com o conservadorismo. Hoje celebramos a maturidade de uma categoria que se reconhece enquanto classe trabalhadora”, disse.
Fernanda ressaltou que a mudança de direção construída pela categoria foi resultado de décadas de organização coletiva, produção de conhecimento e participação nos movimentos sociais. “Deixamos de ser executores da caridade para nos tornarmos intelectuais e operadores de direitos. Essa virada histórica não aconteceu por acaso. Foi fruto de muita luta, da inserção nos movimentos sociais e do enfrentamento às desigualdades estruturais que marcam a sociedade brasileira”, ponderou.
A presidenta do CRESS-DF também destacou que o Código de Ética da profissão ultrapassa a função normativa e representa uma construção política da categoria. “O nosso Código de Ética não é um mero conjunto de regras burocráticas. É um documento eminentemente político. É o nosso pacto com a história e o nosso posicionamento em defesa da justiça social”.
Ainda em seu discurso, Fernanda afirmou que garantir justiça social no contexto atual exige a defesa permanente das políticas públicas, o combate à mercantilização dos direitos e o enfrentamento das opressões estruturais que atravessam a sociedade brasileira.
Mirla Cisne, vice-presidenta do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), reforçou o compromisso histórico da categoria com a classe trabalhadora e destacou que esse posicionamento tem orientado as principais lutas da profissão desde a década de 1970. “No CFESS, a gente quer reafirmar que o Serviço Social tem lado, que nós somos classe trabalhadora e estamos ao lado da classe trabalhadora”.
Mirla citou pautas que seguem mobilizando a categoria em todo o país, como a efetivação da jornada de 30 horas semanais, a implementação da Lei nº 13.935/2019 – que prevê a presença de assistentes sociais e psicólogos na educação básica –, a luta pelo piso salarial e a defesa dos direitos de crianças e adolescentes frente ao PDL 3/2025, que suspendeu os efeitos de uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA).
Memória e resistência
A professora e assistente social Bia Abramides trouxe para o debate a perspectiva de quem acompanha há quase seis décadas a trajetória da profissão. Em uma fala marcada por referências históricas, ela relembrou a participação da categoria nos movimentos de resistência à ditadura militar e destacou a necessidade de manter vivo o legado construído pelas gerações anteriores.
Abramides defendeu uma atuação profissional conectada às lutas da população brasileira, citando a defesa dos povos indígenas, o combate à superexploração do trabalho e a preservação da natureza diante das múltiplas crises que atravessam o mundo contemporâneo. “Nossa profissão precisa estar colada às lutas sociais reais. Não basta compreender a realidade; é preciso atuar para transformá-la”.
Ao dirigir-se aos estudantes presentes na sessão, fez um chamado para que as novas gerações mantenham viva a tradição crítica construída pela categoria. “O caminho do Serviço Social é o da organização coletiva, da resistência e da construção de uma sociedade onde as pessoas possam viver com liberdade e autonomia”.
Também participaram da sessão Eutália Barbosa, secretária-executiva do Ministério das Mulheres, representando a ministra Márcia Lopes; o deputado distrital e assistente social Fábio Félix (PSOL-DF); Joana Valente Santana, presidenta da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS); João Pedro Xavier Gois, presidente do Centro Acadêmico de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB); e Davi Pereira Cruz, assistente social da Justiça Federal de São Paulo.
Assista Sessão Solene na íntegra.
Fotos podem ser conferidas aqui.